Terapia – fio que Penélope tecia?

Quando lemos a palavra terapia, temos uma ideia do que seja. Fazer terapia, geralmente nós vem uma ideia de deitar em algum divã e falar longamente de algum problema com um especialista.

Porém, a palavra terapia tem muito mais história e significado que essa pequena definição feita. Ao investigarmos a origem da palavra, encontramos sua definição no grego Thaerapía, que significava na época dos gregos, cuidado. Cuidado que ia desde um cuidado religioso (culto aos deuses) até um tratamento que ia das plantas até o corpo humano. Em suma, terapia significa cuidado.

Thaerapía que advém do verbo grego Therapeúein – terapêutico. Para a civilização grega, o terapêutico é a arte para um cuidado de si, ou seja, de ocupar-se consigo mesmo. Para ocupar-se de si mesmo.

Therapeúein, que é um verbo de múltiplos valores: therapeúein refere-se aos cuidados médicos (uma espécie de terapia da alma de conhecida importância para os epicuristas), mas therapeúein é também o serviço que um servidor presta ao seu mestre; e, como sabemos, o verbo therapeúein reporta-se ainda ao serviço do culto, culto que se presta estatutária e regularmente a uma divindade ou a um poder divino FOUCAULT, 2010, P.10

Dessa maneira, as palavras tem suas raízes em tera, elemento grego que traduz as ideias de guardar, conservar, observar, vigiar ou respeitar algo. O terapeuta então, pode-se dizer que é aquele que cuida de alguma coisa, que observa, que guarda. Sua arte é a arte do cuidar.

Assim temos um campo sedimentado para a terapia, as tecelãs.

Desde o começo da civilização, é dada à mulher a função do cuidar. Considera-se um fator determinante ao homem e ao seu desenvolvimento histórico, cultural e social, o ato de prevenção e manutenção da vida que o feminino realizou. Um deles, a tecelagem, que desde os primórdios tem como objetivo a criação de proteção (roupas) para o corpo. As tecelãs, como símbolo do feminino, tem realizado a criação e também proteção desse mesmo homem através de sua intricada arte de tecer.

Por ser uma atividade feminina, a tecelagem e as tecelãs aparecem em diversas culturas como as criadoras do mundo e do universo. O tear, no mito e na arte, são formas de narrativa.

Bordar e narrar têm um caráter curativo, ordenador. Ao bordar, ao contar e reinventar um novo traçado para a sua própria história é possível mudar esta história, reinventar um novo desenhoALMEIDA, 2003

Na mitologia grega, temos a figura de Ulisses, o grande herói. Grande guerreiro, engenhoso e astuto, Ulisses é um dos poucos, senão único herói grego que além de utilizar sua força, utiliza de sua grande inteligência, para alcançar seus objetivos. Sua grande habilidade é a sua astucia em criar os mais elaborados planos e estratégias para superação das dificuldades.

Astuciosa também foi Penélope, que rivaliza com seu esposo tal posição. Ulisses estando ausente por longos anos em suas aventuras, já se duvidará que um dia iria retornar. Penélope é então, gradativamente sendo importunada por inúmeros pretendentes a casar-se novamente.

Vendo que não teria mais como adiar tal fato, Penélope cria um artimanha, tão engenhosa quanto seria se fosse por Ulisses. Revela aos seus pretendentes que iria tecer uma veste fúnebre para o pai de Ulisses e só quando terminado, iria enfim escolher um novo esposo. Porém ao tecer durante o dia, Penélope secretamente desfiava toda a veste ao anoitecer, ficando assim em um ciclo repetitivo entre o tear de dia e o desfiar a noite.

Esse trabalho infinito de Penélope vem sendo interpretado como a imagem da esposa fiel, a companheira perfeita, sempre a espera de seu esposo.

Porém ao contrário dessa interpretação, o gênio de Penélope está em justamente na escolha da melhor estratégia que havia para si naquele momento, para a acabar com o assédio. Acima da lealdade para Ulisses, Penélope mantém uma tática racional, inteligente e com uma profunda conexão com si mesma. Ao tecer e desfiar, dia e noite, Penélope se mantém fiel a proposta das tecelãs, que é o cuidar. Mais que fidelidade ao seu esposo, ela mante-se fiel a si mesma, em continuar com sua existência plena e autônoma.

Ao cuidar de si mesma, protegendo a si dos pretendentes, ela tem um crescimento psicológico extremamente benéfico e elaborado, mostrando além da astucia, muito discernimento, criatividade e força para manter-se fiel não a Ulisses, mas a si mesma. Ela estava cuidando de si e somente para si. Mais que aguardar por Ulisses, ela aguardava por ela mesma.

Ela, como uma perfeita tecelã, cria uma narrativa nova para si. Tendo controle total de sua criação e de sua vida, passa a novas formas de pensar, novas formas de agir, novas formas de existir. A Penélope, esposa dedicada de Ulisses não mais existe. O que existe é uma artesã, disposta a cuidar de si mesma, com os recursos que dispõem. De dia ela tece e de noite ela desfia, chegando sempre a um novo ponto de partida, em um novo recomeço, já transformada.

A Penélope de um dia posterior é diferente da anterior, em crescente e infinita evolução… cada novo tecer ela se conhece mais, se apodera mais, se encontra mais.

Voltando a questão do que é a terapia, terapia é isso, é um constante tecer e desfiar. É um espaço, onde o criar de novas telas de existência são tecidos. A narrativa é sempre feita e refeita, em um continuo trabalho que não tem um fim, mas sempre tem um recomeço. Um recomeço para compreender a si mesmo e criar uma forma de existir. De tear uma nova história em nossas vidas.

Esse é o papel do terapeuta, de todos os terapeutas – de cuidar, de poder de alguma forma, ajudar o outro a tecer uma nova existência. Que consigamos tecer uma veste nossa e só nossa. Que nos vista e nos acolha, mas também um dia, que seja desfeita. Pois mudamos e crescemos e novas vestes devem ser tecidas. Mas com o mesmo fio da veste anterior, carregando nesse fio, a história da veste anterior, para assim, estarmos mais plenos que ontem.

Sejamos artesãos da nossa vida, como Penélope, tecendo e desfiando, começando e recomeçando.

 

FOUCAULT, Michel. (1982). A hermenêutica do sujeito. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010, 680 p.

ALMEIDA, Leia. Genealogias femininas em O penhoar chinês de Rachel Jardim. 2003. Disponível em https://pendientedemigracion.ucm.es/info/especulo/numero24/genealog.html Acessado em 29/07/2015