Pega mas não se apega

A deusa da criatividade às vezes demora em dar o ar de sua graça para nós pobres mortais. Por ser uma mulher, ela é bem intempestiva. Há momentos que nós não podemos nem chegar perto e em outros, bem, ela está lá, cheia de amor e carinho para compartilhar com os simples mortais que somos…

Como toda deusa, ela é exigente, delicada e temperamental! Quando nós, mortais, a queremos, só de birra, ela não vem. Apenas para nos atormentar, nos torturar um pouco mais, para ficarmos plenamente necessitados dela. E é verdade, quando mais a queremos, mais ela se diverte em fugir e rir da nossa cara…

Então quando cansamos de persegui-la, quando finalmente deixamos pra lá, que desapegamos de vez de seus gracejos e sopros criativos… Ai, meus companheiros de sina, que ela resolve aparecer!

Esses sim são os piores momentos, quando já estávamos em outra, fazendo qualquer outra coisa, pensando em qualquer outra coisa. E ela vem tão rápida, mas tão rápida, que é claro que na maioria das vezes, assusta! Não estávamos esperando ela vir!

Quantas vezes estávamos no carro, no ônibus, em uma fila que seja, pensando nas mortes de algumas bezerras (eu mesmo já assassinei várias) e então temos, repentinamente aquele clique,  aquela bendita ideia que nos atormentava há horas, dias, meses atrás… Aquela solução de alguma questão de alguma prova, aquela fala que acabaria de vez com uma discussão e sairíamos vitoriosos, o tom certo para aquela partitura, a ideia para aquele esboço, aquela palavra perfeita para nosso texto…

Por que ela não veio antes? Por que justo agora? Agora que eu estou ocupado, fazendo e pensando em um bilhão de outras coisas?

E o que irrita muito é que ela privilegia alguns e menospreza outros pelo que parece… Afinal, se somos todos mortais, qual é a diferença entre George R.R Martin, Gabriel Garcia Marques ou mesmo Beethoven de nós?

Ok, ok…eles são gênios, mas gênios não nascem do nada… claro, eles nascem com talentos e presentes divinos que a maioria de nós nem sonha em tê-los… mas duvido muito que Beethoven se tornou o que se tornou se não tivesse praticado atá ficar surdo!

Ela não veio por um motivo muito simples… Porque estávamos pesados. Estávamos tão fixos, perseguindo aquela ideia que não vinha, que perdíamos a leveza de ser nós mesmos e por tabela, sermos criativos! Perseguíamos com tanta ferocidade, uma deusa que tem por definição, ser temperamental e ao mesmo tempo delicada! Como haveríamos de chamar a atenção dela dessa forma tão pesada e cruel?

Claro, existem técnicas e métodos muito eficazes para atiçar e chamar a deusa ao nosso encontro mais vezes e mais vezes, mas a principal e eu creio que também seja primordial é apenas uma… leveza.

Se estivermos estressados, furiosos, cansados, assustados e etc, ou seja, se estivermos pesados de ideias, pensamentos e emoções, não adianta nem insistir, que não vai rolar a química com ela. Podemos forçar o que for, não vai sair nenhum resultado. Aliais sair até sai, mas não vai ter a qualidade, a força e nem a magia que teria se estivéssemos realmente inspirados.

E essa leveza, cada uma encontra a sua, no silêncio, no barulho, caminhando, ouvindo música, lendo, desenhando, cortando a grama, na luz da noite….

Mas é apenas e unicamente nessa leveza de espírito que possibilitamos a abertura do nosso ser à criatividade, de finalmente nós, pobres mortais finitos, encontrar com essa tão cobiçada deusa temperamental! É a sensível arte do se apesar, desapegando! É difícil explicar em palavras, é daquelas experiências que tem que ser vivida e sentida – sendo extremamente particular.

E para finalizar não é o que o pessoal gosta de chamar de ócio criativo. A criatividade e o próprio ato de criar e conseguir uma inspiração, não tem nada de ócio, da aquela ideia de falta de ter o que fazer. É justamente o oposto, o não fazer nada, leva obviamente, a não fazer nada!

Conseguir aquela ideia genial, aquele pensamento super criativo não tem nada de ócio. É um trabalho quase que artesanal, feito com muita dedicação mental e física! Beethoven treinava desde os 11 anos… Os Cem Anos de Solidão levou 1 de sacrifícios do autor para ficar pronto…

A deusa da criatividade não privilegia escolhidos, ela privilegia os espirituosos, os que se deixam abrir para os outros, para o mundo… Ela toca justamente aqueles que não mais a perseguem, mas aceitam e entendem que só estando vazios, é que se pode ser preenchido por amor…

Leve – sem pesos, amarras, rigidez…

vazio de tudo para receber tudo!

e o criar acontece!

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